Para quem imagina que os interesses sociais são todos econômicos ou redutíveis aos interesses econômicos, como defende o pensamento hegemônico liberal e certas tradições marxistas, toda a realidade da “economia moral” da sociedade e suas lutas intestinas é interditada. No entanto, as lutas pelas distinções morais e sociais, ou seja, a sensação, ainda que artificial e fantasiosa, de “superioridade” em relação aos outros, são tão ou mais importantes para o destino de uma sociedade do que as lutas econômicas pelo acesso aos bens escassos. Desse modo, tão fundamental quanto perceber a lógica global da economia que explica a distribuição desigual de bens e serviços “materiais” é perceber, também, a lógica global por trás da economia moral da humilhação e do privilégio.

Afinal, os privilegiados não querem apenas saber que são mais ricos e afortunados do que os outros. Eles querem saber que têm “direito” ao privilégio, dado que os outros são “inferiores” e, portanto, merecem seu lugar como subordinado. Com o tempo, inevitavelmente se instaura o “prazer” sádico de se exercer a dominação em todas as dimensões da vida sobre os demais percebidos, cotidianamente, como inferiores. Para quem não  é capaz de se dar conta disso, o funcionamento das sociedades e a lógica das lutas de classe intestinas vão permanecer sempre um grande mistério. Como todo sentimento de superioridade embute um “racismo”, aqui definido amplamente como a produção de uma diferença entre o humano e o sub-humano, o racismo não se restringe à cor da pele ou a supostos atributos fenotípicos, tal como imaginamos.

Normalmente, a dificuldade está em compreender que o racismo, percebido como a separação entre o humano e o sub-humano, é produzido antes de qualquer “branquitude” ou “negritude”. Na tradição ocidental, que se tornou hegemônica no mundo todo, “humano” é sempre o “espírito”, o intelecto, a moralidade e o gosto estético, e “sub-humano” é sempre a ênfase no “corpo” e suas paixões e emoções, o que, por sua vez, é entendido como aquilo que nos animaliza. Nesse sentido, a mulher, o negro, o trabalhador manual são todos “animalizados” e, portanto, percebidos como inferiores em relação aos homens, aos brancos e às classes letradas. O racismo é, dessa forma, a maneira universal de humilhação a partir da diferença entre o espírito e o corpo, sendo o racismo “racial” apenas uma de suas possíveis facetas.

Em países como o Brasil e os EUA, com acentuado passado escravocrata, é o racismo “racial” o aspecto mais importante da lógica social global da humilhação. Isso significa que todas as demais formas de rebaixamento terão como principal referência o componente racial. Compreendi isso depois de estudar empiricamente durante mais de vinte anos as classes sociais e suas relações no Brasil. Como o racismo brasileiro é um “interdito” e um tema proibido, dado o sucesso do “discurso” da miscigenação, a princípio por meio da influência de Gilberto Freyre na cultura e da de Getúlio Vargas na política, ele tem, no entanto, que se apresentar sempre por “interposta pessoa”. Daí a importância também de compreender como o racismo “racial” se reveste de outras máscaras.

Nas classes superiores brasileiras, o racismo é substituído pelo falso moralismo do combate à corrupção, que implica a criminalização da soberania popular, já que é apenas utilizado contra os líderes populares. Partindo-se de um discurso que identifica a corrupção exclusivamente em políticos ligados a causas populares, quase sempre feito de forma injusta e sem provas, a exemplo do ocorrido nas acusações contra Getúlio Vargas e Lula, com a utilização da imprensa e sua artilharia de difamação, temos, na realidade, o exercício do racismo prático – a negação do exercício da esfera política para os negros e pobres – travestido de comportamento moral.

Qualquer pessoa com o mínimo de capacidade intelectual sabe que a classe média branca que saiu às ruas, histericamente, em defesa de Moro e contra Lula não tinha qualquer sentimento real contra a corrupção. Se assim fosse, teria saído em número ainda maior contra Aécio e Temer, no caso das malas e, agora, com o laranjal e as “rachadinhas” da família Bolsonaro. A necessidade real é conter o poder majoritário dos pobres unidos pelo voto a líderes populares como Vargas e Lula, que terminam por ameaçar os privilégios econômicos da elite e os privilégios educacionais da classe média. Mas já que isso não pode ser dito abertamente em um contexto que se pretende “não racista”, então é preciso criar uma máscara moral para acobertar um sentimento imoral: o apoio ao suposto combate à corrupção permite travestir o racista canalha de classe média em suposto campeão da moralidade.

Nada deixa isso mais claro do que o apoio decidido do qual Moro desfruta entre a classe média branca e bem-vestida, mesmo depois que a “Vaza Jato” foi exposta em sua canalhice e parcialidade. Ficou óbvio, por exemplo, que Moro não atacou a corrupção de FHC para não “melindrá-lo” e, assim, perder um aliado na perseguição a Lula. É claro que o canalha de classe média que ainda apoia Moro não está, portanto, preocupado com corrupção coisa alguma, mas apenas em perseguir líderes populares, uma vez que é a perseguição a Lula, mesmo fundada em mentiras e desobedecendo todas as leis, o que garante, ainda que provados todos os desmandos, o amplo apoio a Moro. É desse modo que o racismo da elite e da classe média branca se traveste de “superioridade moral” contra a parcela negra e mais humilde da população, supostamente conivente com a corrupção. Como ainda não se inventou nenhuma outra desculpa para o ódio e a humilhação dos negros e dos pobres no Brasil, a desculpa literalmente esfarrapada do combate à corrupção continua agindo por inércia.

Entre os pobres, que são mais realistas e pragmáticos do que a classe média e percebem a política como coisa de ricos e corruptos, o racismo assume outra máscara. A justificativa para humilhar os outros e se sentir superior é fornecida pela oposição do “pobre honesto”, quase sempre evangélico e “homem de bem”, contra o “pobre delinquente”, criminalizado como bandido, homossexual, prostituta ou, simplesmente, “negro”. Obviamente a definição de “delinquente” é aquela que as classes altas impõem aos pobres, que literalmente não possuem defesas, nem cognitivas nem emocionais, contra essa agressão. A luta dos pobres é, portanto, uma tentativa desesperada de situar-se no campo definido como positivo pelo seu inimigo de classe. Essa divisão abrange todas as famílias pobres, jogadas elas próprias, em razão da pobreza e da desigualdade estrutural, na iminência da delinquência, como definida pelos poderosos.

Nas classes populares, o bolsonarismo permite a expressão tanto do “lixo branco”, ou seja, do branco pobre que inveja o branco rico e odeia o negro, seu vizinho, quanto o racismo do “pobre de bem” contra seu irmão criminalizado. Ninguém tem dúvida, entre os pobres brasileiros, de que a “luta contra o crime”, principal bandeira do “milicianismo” no poder com Bolsonaro, é um mero eufemismo para o genocídio de jovens negros pobres e sem chances de futuro. Witzel foi ungido pelo bolsonarismo para cumprir precisamente essa função, apesar de desavenças eventuais e eleitorais. A polícia de Dória em São Paulo também segue à risca o mesmo enredo. Por causa disso, o racismo também é a energia e o afeto predominantes aqui. A última classe brasileira, a dos desclassificados, abandonados, esquecidos e humilhados, quase todos pretos e pobres, funciona, desde a escravidão, como ponto de união entre as classes superiores em uma batalha sem tréguas “contra os pobres”; e, ainda, como divisor da solidariedade popular, propiciando e estimulando a guerra “entre os pobres”.

Desse modo, o racismo implícito do bolsonarismo casa perfeitamente com a prática miliciana e com a pregação evangélica. A construção da figura do “delinquente” é tanto a senha da milícia para matar legitimamente – como não pensar no projeto de Moro e sua “licença para matar” concedida ao policial miliciano? – como também, por mera oposição, o “caminho da salvação” de todo pobre honesto, convertido e evangélico. A partir daí, Bolsonaro se torna o líder orgânico de duas facções criminosas que operam juntas: uma matando e extorquindo dos pobres serviços encarecidos, e a outra “lavando o dinheiro” do crime em suas igrejas. De quebra, Bolsonaro se projeta como o protagonista de uma guerra “entre os pobres”, que permite quebrar a hegemonia lulista anterior e lhe assegurar uma parte significativa do eleitorado popular.

Moro e sua guerra contra Lula e contra a representação política dos negros e pobres é o representante orgânico da classe média branca que traveste seu racismo covarde em superioridade moral. Bolsonaro é o representante do “pobre remediado”, às vezes branco, às vezes mestiço ou negro, mas sempre manipulado pelo opressor para canalizar seu ressentimento contra seu irmão ainda mais pobre e ainda mais criminalizado. Todos ficam mais pobres, mas possuem sempre alguém para humilhar.

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JESSÉ SOUZA é graduado em direito e mestre em sociologia pela Universidade de Brasília, a UnB, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e fez pós-doutorado em psicanálise e filosofia na New School for Social Research, em Nova York. É autor de mais de 20 livros e de artigos e ensaios em vários idiomas. Entre seus maiores sucessos, se destacam A tolice da inteligência brasileira, A radiogra a do golpe, Subcidadania brasileira e A elite do atraso (LeYa); A ralé brasileira (Contracorrente); e Os batalhadores brasileiros (Editora UFMG). Atualmente é professor titular de sociologia da Universidade Federal do ABC.

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