As últimas revelações da “Vaza Jato”, que mostram as ações de Moro para fraudar o STF e a sociedade no caso da nomeação de Lula ao cargo de ministro da Casa Civil de Dilma, ao final de 2015, são as mais importantes até agora. Lula passa a ser reconhecido como o preso político mais importante do mundo, assim como Mandela o era décadas atrás. O processo comandado por Moro perdeu de vez qualquer aparência de legalidade. Todas as vítimas do “Lawfare” ao redor do globo agora procuram se irmanar com o ex-presidente petista como estratégia de defesa.

Os últimos vazamentos mostram o uso intencional de informações seletivas com o intuito de levarem a erro o STF e a sociedade brasileira. Moro decidiu divulgar apenas uma parte das escutas telefônicas, que supostamente incriminariam Lula, deixando de lado inúmeras outras falas com conteúdo exatamente contrário ao alegado. Como tal fato foi decisivo tanto para a queda de Dilma, no “golpeachment” que se seguiu, quanto para a própria prisão de Lula posteriormente, fica claro que Moro agiu de má-fé e criminosamente desde o início de todo o processo.

Moro e Dallagnol assumidamente trataram a Justiça e a Constituição como meras “filigranas jurídicas”, visando ao bem maior de erradicar o PT do comando político do país. Os vazamentos comprovam, portanto, de modo indiscutível, a utilização de um processo político espúrio com o uso intencional e criminoso da pressuposição de neutralidade e isenção do Poder Judiciário. Maior ataque à democracia vindo de quem cabia defendê-la é difícil de ser imaginado. Creio, também, que as últimas revelações terão maior impacto no STF que as anteriores, dado o ataque direto ao órgão. Veremos.

De qualquer modo, todo o processo político brasileiro dos últimos anos perde sua credibilidade. A resistência dos amplos setores que participaram do golpe se deve ao fato de eles serem cúmplices da trama. Especialmente a imprensa. Mas, hoje em dia, todos já sabem o que de fato aconteceu. E isso importa. A queda irreversível de Moro significa a queda de todo o processo do qual ele foi a figura central até agora. Isso inclui, obviamente, a própria eleição de Bolsonaro. Houve fraude do começo ao fim.

Por esse motivo o Lula Livre é a principal bandeira de qualquer luta pela restauração da democracia entre nós. Como a sua prisão ilegal e imoral, sustentada em um processo fraudado, foi o alvo principal de todos os crimes perpetrados, sua liberdade obviamente passa a simbolizar qualquer avanço real da retomada de princípios democráticos. Isso se dá também pelo fato de que Lula não é um líder político qualquer. Sua prisão ilegal significa a criminalização da soberania popular do povo brasileiro. Uma criminalização que tem a idade do Brasil e que perdura até hoje.

O ódio de Moro a Lula, que o fez perder qualquer noção de limite, é também o ódio de uma parte da elite e da classe média brasileira que jamais aceitou a regra democrática. Esse é o inimigo real. É que Lula, no seu modo de ser, falar e fazer política, representa e simboliza a massa do povo brasileiro, os 80% de pobres mestiços e de negros que compõem a população. E, na verdade, quem está preso agora com o petista  em uma prisão que já dura mais de 500 anos  são a voz, os interesses e a expressão da maioria esmagadora dos brasileiros. Sempre que o povo brasileiro pôde se expressar com mais autonomia e tentou construir um Brasil para a maioria, como nas eras de Getúlio Vargas, Jango e Lula, golpes de Estado foram cometidos para interromper o processo democrático. Uma pequena elite que tem todo o dinheiro, todos os meios de comunicação e todos os cargos públicos mais importantes se une contra seu povo.

Ao contrário dos outros grandes líderes da história brasileira, como Vargas e seu sonho de um Brasil forte e industrial, Lula é o primeiro que vem do povo e pertence ao povo. Por esse motivo, ele sempre soube que nenhuma vida está perdida, mesmo aquela que assim parece aos olhos de todos, e pôde concentrar seus esforços para ajudar quem nunca havia sido ajudado por ninguém: os mais desprezados, ofendidos e humilhados em 500 anos de história. Isso o torna único. Por isso ele é incontestavelmente o maior líder popular de toda a nossa história.

No entanto, foi precisamente essa a razão que fez de Lula o mais odiado pela pequena elite colonizada, entre todos os líderes políticos que o Brasil já teve. É que uma sociedade que jamais se reconheceu como escravocrata, daí ter se imaginado sempre uma continuidade com Portugal que, no entanto, nunca teve escravismo, continua sendo escravocrata com máscaras modernas.

Quem não sabe quem é não pode se criticar, nem, portanto, aprender. Daí que a lei não escrita mais importante que a Constituição, seja, no Brasil, até hoje, a lei da escravidão eterna: os negros e os pobres mestiços devem continuar pobres e humilhados para permanecerem servis e dóceis. A escravidão não se limita a exploração econômica. Daí vem, inclusive, seu mal maior. A escravidão é, antes de tudo, o gozo sádico dos “senhores”, a elite e a classe média branca e racista, em se sentir superior e poder humilhar, cotidianamente, os 80% restantes de mestiços e negros que vivem em situação precária ou que precisam lutar o tempo todo contra o preconceito. Quando Lula ofereceu oportunidade e futuro para essa gente, ele colocou em risco o prazer racista e elitista da manutenção da distância social e da não convivência com a população negra e mais humilde.

Essa é a lei não escrita de toda sociedade marcada pela escravidão. Essa é a verdade incômoda que o Brasil elitista não quer ouvir. Não é à toa, portanto, que os algozes de Lula sejam todos eles os Tessler, Cheker, Moro, Dallagnol, Hardt, todos orgulhosos do nome e da ascendência europeia, ainda que não compartilhem nenhum dos valores igualitários e de respeito à Justiça que a própria Europa pratica.

A pequena elite de proprietários importou da Europa uma “elite funcional” branca e com acesso a boa educação para desempenhar o papel de um “bolsão racista” contra o povo. Nem todos os imigrantes, obviamente, se serviram a esse papel, mas muitos correm ao Estado, ao mercado e à imprensa elitista para manter o povo oprimido e sem voz. O que vem do povo deve ser chamado de “populismo”, de manipulação, e o povo mesmo deve continuar morrendo pelas mãos da própria polícia que deveria protegê-los. É assim que a escravidão, que é, no seu âmago, humilhação e ódio ao próprio povo, continua com outras máscaras, produzindo, no entanto, o mesmo resultado. Essa é uma verdade incômoda, que ninguém quer ouvir, mas apenas ela explica o inexplicável ódio a Lula. Só ela nos permite compreender por que Lula, perseguido por uma trama suja e mentirosa que hoje todos podem ver, continua preso injustamente.

Hoje, o Brasil grande e poderoso que Lula construiu, caminhando para ser a quinta maior economia do mundo, com petróleo e indústrias de ponta de engenharia e aviação, com plenas oportunidades de emprego e com negros e pobres nas universidades, está sendo mais uma vez destruído pela elite colonizada e pelo racismo de parte da classe média contra o próprio povo. E já que não é conveniente admitir um ódio tão perverso ao mais frágil, perseguido e abandonado, então é preciso “personalizá-lo” na figura de seu líder maior. E inventar, sem provas, em conluio mentiroso, uma guerra do “falso moralismo”, urdida por canalhas cujo fim, como sempre, é reafirmar as crenças da elite e criminalizar o povo e seu voto.

Esse ódio ao próprio povo é tão doentio que hoje se alia ao fascismo aberto, ao elogio da tortura e do assassinato de inocentes e desprotegidos. A “guerra contra o povo” da elite e da classe média racista se transformou em “guerra entre o povo”, semeando, com dinheiro e técnicas americanas, a discórdia entre os oprimidos e desesperados. Enquanto Lula defendia os interesses gerais dos pobres, Bolsonaro cria conflitos entre eles usando os preconceitos da vida privada de cada um, para tornar o Brasil um palco de guerra de todos contra todos. Enquanto isso, os Estados Unidos, que montaram o palco e a trama de sua eleição fraudulenta, roubam a preço de banana tudo o que se construiu durante tanto tempo, com esforço e luta de todos os brasileiros.

A luta de Lula não é mais apenas dele. Assim como Mandela, Gandhi e outras grandes figuras da humanidade, que tiveram a grandeza de dedicar a vida à luta contra a pobreza, a perseguição e a colonização de seu povo, a liberdade de Lula significa a liberdade do povo brasileiro como um todo. Perseguido, escravizado e enganado, Lula hoje é, antes de tudo, o novo Zumbi dos Palmares, o líder daqueles que resistem à escravidão, e, com as armas que possuem, lutam contra a mentira e a injustiça. É isso que o Lula Livre significa: um Brasil para todos, cuja riqueza deve servir à imensa maioria de sua população.

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JESSÉ SOUZA é graduado em direito e mestre em sociologia pela Universidade de Brasília, a UnB, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e fez pós-doutorado em psicanálise e filosofia na New School for Social Research, em Nova York. É autor de mais de 20 livros e de artigos e ensaios em vários idiomas. Entre seus maiores sucessos, se destacam A tolice da inteligência brasileira, A radiogra a do golpe, Subcidadania brasileira e A elite do atraso (LeYa); A ralé brasileira (Contracorrente); e Os batalhadores brasileiros (Editora UFMG). Atualmente é professor titular de sociologia da Universidade Federal do ABC.

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