Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo “racial” entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios. Como esse mecanismo funciona na realidade cotidiana? Minha tese é a de que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve “na prática” inalterado desde a abolição da escravatura.

Fundamental para compreender este estado de coisas é a função que o ex-escravo abandonado e humilhado vai ter na sociedade pós-escravocrata. O ex-escravo é afastado do mercado de trabalho competitivo e passa a desempenhar as mesmas funções humilhantes e indignas que exercia antes. Seja tanto as funções de trabalho sujo, pesado e perigoso, para os homens, quanto as funções domésticas do antigo “escravo doméstico”, para as mulheres, as quais reproduzem todas as vicissitudes da antiga relação senhor/escravo. Faz parte do âmago desta relação não só a exploração do trabalho vendido a preço vil, mas também a humilhação cotidiana transformada em prazer sádico para o gozo frequente e para a sensação de superioridade e a “distinção social” das classes média e alta.

Mas isso tudo não é nem sequer o principal. Os negros na base da pirâmide social brasileira sempre desempenharam uma função semelhante à casta dos intocáveis na Índia. Como nota Max Weber no seu estudo clássico sobre o hinduísmo, os intocáveis possuem a função de legitimar toda a ordem social hindu na medida em que todas as outras castas, mesmo as inferiores, são distinguidas positivamente em relação aos intocáveis.

Como a “distinção social”, ou seja, a sensação de se saber “superior” a outros é tão importante na vida social quanto o dinheiro e a necessidade econômica, isso significa que uma classe social na qual todos podem pisar, humilhar, violar, agredir, e, no limite, assassinar sem temer consequências satisfaz, a uma necessidade primitiva fundamental a todas as classes acima dela. É óbvio que uma sociedade deste tipo não é apenas desumana, desigual, primitiva e tosca, mas também, na pior das hipóteses, burra, já que reproduzir a exclusão social produz insegurança, pobreza e instabilidade social para todos. Entretanto, este é o DNA da sociedade brasileira.

É importante notar que, paralelamente à condenação do negro à exclusão, o país passa a implementar a política abertamente racista da importação de imigrantes europeus brancos, na imensa maioria italianos, precisamente como no caso da família do excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro. Uma parte considerável destes “neobrasileiros” ascende rapidamente, alguns inclusive à elite de proprietários e de novos industriais, mas boa parte irá constituir a classe média branca de grandes cidades como São Paulo. Nas outras grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e Recife, os portugueses exerceriam o mesmo papel do italiano em São Paulo.

O imigrante branco, na maioria o italiano ou o português, irá constituir no Brasil, ao mesmo tempo em aliança e a serviço da elite de proprietários, uma espécie de “bolsão racista e classista” contra os negros e pobres que constituem a maior parte do povo. Para a elite, isso significa a oportunidade de criminalizar e estigmatizar a soberania popular no nascedouro com a cumplicidade das classes médias e garantir só para si o orçamento do Estado via juros escorchantes, “dívida pública”, sonegação de impostos e outros assaltos legalizados. Para as outras classes, o preconceito universal contra o negro e ex-escravo permite a construção de uma frente comum para a manutenção de uma distinção social positiva contra os negros, o que eterniza o abandono, a humilhação, e o genocídio desta raça/classe como política pública informal.

Mais interessante ainda para nossos propósitos aqui é a função do racismo contra o negro para os imigrantes que não lograram sucesso econômico na nova terra. Muitos imigrantes não conseguiram ascender à classe média verdadeira nem à elite. Boa parte vai constituir uma zona cinza que inclui a classe trabalhadora precária e o que poderíamos chamar de “baixa classe média”. O cotidiano de muitos destes não difere muito da vida do negro e do pobre brasileiro. Moram eventualmente no mesmo bairro e passam privações materiais. É precisamente nesta faixa social que o preconceito de raça é ainda mais importante. Afinal, a única distinção que este pessoal tem na vida é a “brancura” da cor da pele para exibir contra o negro.

Entrevistando pessoas desta classe social no interior de São Paulo descendentes de italianos, como Bolsonaro, e alguns que inclusive moram onde ele nasceu para meu livro “A classe média no espelho”, notei um racismo que não tem nada de cordial. Bolsonaro é filho da baixa classe média de imigrantes para os quais a carreira no exército ou na polícia era a promessa de ascensão segura ainda que limitada. Neste contexto, não se casar com um negro ou com uma negra é a regra familiar mais importante e mais rígida. Aqui, o preconceito puro, o orgulho da cor da pele e da origem é a única distinção social positiva ao alcance. Se a elite e a classe média exploram economicamente – além de humilhar – os negros, aqui só se pode humilhar. Enfatizar uma distância social quase inexistente do ponto de vista econômico exige um racismo “racial” turbinado e levado às últimas consequências.

Este é também precisamente o caso do “lixo branco” norte-americano que ajudou a eleger Trump, o objeto do desejo e de imitação de Bolsonaro. Os brancos do Sul dos EUA, inferiores social e economicamente aos brancos do Norte, são, por conta disso, como uma espécie de “compensação” da riqueza inexistente, os racistas mais ferozes e ativistas de uma “Ku Klux Klan” que assassinava e linchava negros indiscriminadamente. Este é o caso de Bolsonaro e de seus seguidores no Brasil. E o que é a “milícia” carioca, com a qual Bolsonaro e seus filhos estão envolvidos até o pescoço, se não a Ku Klux Klan brasileira, que existe para explorar e matar negros e pobres, os supostos “bandidos” das favelas?

Embora a elite e a classe média real e canalha também tenham votado nele, sua real base de apoio é o “lixo branco” brasileiro, próximo do negro e por conta disso ávido por criminalizá-lo, estigmatizá-lo como bandido e por assassiná-lo impunemente. A associação com a milícia, a tara pelas armas e o discurso de ódio são para matar o preto e o pobre. O que está por trás de Bolsonaro é racismo “racial” mais cruel e expresso do modo mais aberto e canalha que se viu.  O ódio à universidade pública está também ligado ao fato desta, agora, ter sido “invadida” por negros e pobres. Essa gente não estaria lá para estudar. Só poderia ser para fazer balbúrdia. Urge cortar as verbas para isso.

A irracionalidade de Bolsonaro, sua loucura e sua idiotice são a expressão perfeita do ódio racial brasileiro. O ódio que não se explica racionalmente, nem apenas por motivos puramente econômicos. O ódio do racista que se vê como fracasso social é um ódio de morte. Ele não compreende as razões de sua posição social e só tem ressentimento sem direção na alma e no coração. Ódio em estado puro que Bolsonaro expressa e exprime como ninguém. Bolsonaro é o líder da Ku Klux Klan e do “lixo branco” brasileiro. É isso que o define e o explica mais que qualquer outra coisa.

 

13 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom os textos!
    Parabéns pela alta reflexão sobre a sociedade brasileira, de mostrar a realidade que os “donos do poder” teimam em esconde-la. Levando a maioria da população que teve poucas oportunidades de acesso aos espaços do conhecimento e debates críticos, a indução do erro, a repetir e fortalecer os costumes coloniais, os estigmas e esteriótipos ainda muito presentes na classe média podre e realmente asno.
    O povo foi induzido a errar colocando um desprovido de inteligência no comando do país que estava caminhando, a meu ver, muito bem. O Brasil durante os 12 anos de governo que respeita e preza pela democracia, deu um salto que durante os meus 40 anos de idade, ainda não tinha presenciado e muito menos vivido.
    Valeu!
    Gosto muito de suas obras, comungo das suas ideias.
    Só quero chamar a tenção para o termo escravo ou ex- escravo, pois, recomendo que utilize o termo escravizados. Isto porque, as pessoas que vieram para cá para desenvolver trabalhos subumanos como sabemos, foi uma condição que lhe foi imposta, elas foram escravizadas.
    Por isso e outras razões, penso que o termo mais adequado é escravizados/as porque elas não escolheram ser escravas, foram forçadas.
    Apenas para contribuir um pouco na adequação de termos que vem sendo discutidos por especialistas da área.
    Mas isso não desqualifica nem um pouco a sua obra, muito pelo contrário, corrobora.

    • Exatamente. Os africanos foram escravizados. A Europa e Estados Unidos sequestraram os africanos pretos e os mantiveram reclusos . O ser humano sabe ser extremamente cruel e desumano em determinadas situações. Acredito que muitos que votaram “neles”, nos USA e no Brasil não gostaram de ver seus carácteres inconscientes revelados.

  2. Excelente artigo! Já favoritei aqui.
    Mas, depois de lê-lo, surgiu outra indagação em minha mente: como explicar o apoio de alguns negros ao Bozonazismo?
    Você já escreveu um artigo sobre esse tema?
    Grande abraço e parabéns!

  3. Caríssimo colega, parabéns por resgatar o racismo como tema central da desigualdade.
    Fomos colegas na UnB, ainda quando estávamos no Mestrado, e na UFF, no seu curto período por lá. Fico muito feliz em constatar o upgrade analítico em suas observações quando o Racismo passa a estar presente no seu horizonte como chave analítica, fato que até então não havia percebido de forma enfática em sua obra, senão, apenas, a relevante e forte referência à escravidão, latifundio e tantos outros derivados.
    Embora sinto-me gratificado com o seu imprescindível recorte, lamento que neste comentário você não tenha ajudado a, de fato, a dar mais um passo mais amplo na descolonização do pensamento acadêmico ao resgatar uma tradição de na análise social que, continuadamente, tem sido apagada na construção do Pensamento Social Brasileiro. Desde José do Patrocínio e Luis Gama, ou antes mesmo com toda a literatura ficcional pré-abolicionista agora em desvendamento e concernente à matéria do racismo, verificamos um certo desprezo para este rico e original material que emerge como farol em toda a diáspora atlântica nos estudos sobre racismo e liberdade. Deste modo, creio que você iluminaria ainda mais seus leitores se trouxesse como referência, além de Weber, alguns dos muitos pensadores negros nas ciências sociais que, há décadas, apontaram para o Racismo como chave analítica, todavia, foram ejetados do circuito e, consequentemente, da lista dos canonizados no campo. É o caso de Virginia Bicudo (primeira psicanalista e socióloga negra), Guerreiro Ramos, Eduardo de Oliveira e Oliveira, Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Abdias do Nascimento, Neuza Santos, entre muitos outros. Mencionar qualquer um deles como os autores pioneiros no âmbito das pesquisas sobre o racismo, já seria suficiente para movimentar o capital cultural da inteligência negra como um ativo singular do pensamento nacional sobre o problema racial, desde o século XIX. Até porque os autores brancos que o fizeram, mesmo que timidamente, até que conseguiram ser considerados, como Florestan Fernandes e Oracy Nogueira. Um forte abraço. Julio Cesar de Tavares

  4. O que diriam:
    – Gilberto Freyre: estudioso da sociedade “democrática” racial brasileira?
    – Paulo Freire: educador e teórico da educação do oprimido? e,
    – Roberto Freire: político vira-casaca antipetisra?

  5. Exatamente. Os africanos foram escravizados. A Europa e Estados Unidos sequestraram os africanos pretos e os mantiveram reclusos . O ser humano sabe ser extremamente cruel e desumano em determinadas situações. Acredito que muitos que votaram “neles”, nos USA e no Brasil não gostaram de ver seus carácteres inconscientes revelados.

  6. Salve Jessé. Seu texto, extremamente pertinente serve de base para dizer que apenas “resistir” ou ficar encaminhando dezenas de abaixo assinados não é suficiente. Com o fascismo não é possível se dialogar, é necessário combatê-lo radicalmente. A “desobediência” civil e outras formas radicais de enfrentar esses canalha é imprescindível.

  7. O Brasil, está no pior clube, dos piores países de índices sociais e econômicos do mundo, e não se chega a lugares desses, de um dia pro outro e sem uma liderança,composta de seres humanos, que liderem um país para esse lugar. Nenhuma liderança, gerência sem uma ideologia orientadora, é uma bobagem-ingenua pensar que, essas coisas acontecem por acaso. (vide colonizaçao e o processo escravista e economia advinda do escravismo). Então, #negar, #não #refletir sobre os #erros históricos, sobre as ideológicas de base, que geraram as relações socio-econômicas que fundaram e afundaram o Brasil, e os seus ciclos falidos, e #nao #buscar #soluções #concretas como; a descolonizaçao ideologica do racismo-eugenico e seus desdobramentos(institucionais e estruturais), negar o obvio porque nao queremos encarar-los; so’ faz perpétuar e aprofundar a burrice do engessamento ideologico racista-eugenico que e’ irracional e violento, fomentado e sustentado(direta e indiretamente) pelos grupos ligados a gerência publica (poderes publicos e privados), que produz em suas bases familiares; individuos(as) que vão estar nos poderes ( públicos e privados) e fazendo administrações desastrosas, é uma imbecilidade-maliciosa e perigosa, achar que e’ coisa do acaso. O que mostra que estamos sim, estamos nas mãos de imbecis funcionais (incompetentes e descompromissados) com o Brasil. Este fato, nos dias difíceis de hoje, é perigoso, porque dividir e enfraquecer sempre foi a estratégia que fragilizou e enfraqueceu as nações. E estamos nesse loop desde do Brasil-colonia, e isso e’ mais perigoso agora, especialmente quando, os paises emergentes, fragilizados no passado com essas tecnica (dividir e enfraquecer), agora, com gestores que observaram isso, estão agora, sanando diferenças e fraquezas, investindo, fortalecendo e promovendo qualidade de vida a TODOS os filhos e filhas da pátria, para agregar recursos humanos, materiais e imateriais; fortalecendo o sentido de unidade ese preparando… e Brasil liderado por branquitudes burras, ainda de papaio de pirata…de um imperio que esta falindo, Brasil sem resultados positivos concretos para todos os seus filhos e filhas da pátria… Brasil sem se levantar na sua propria ideologia e espinha dorsal… e’ muito perigoso isso…

  8. Parabéns Jesse, é a análise mais perfeita desse sujeito indigesto, infelismente joje presidente do Brasil que já pude ler. Ele transpira esse ranço da sociedade mediocre do nosso país. Seu trabalho é memorável e descreve com maestria nossa realidade. Gostaria que me apontasse uma direção, há algo que podemos fazer para mudar o rumo que nosso país tomou após as eleições?

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